Além do limite: a medicina dos atletas de elite

ALÉM DO LIMITE: A MEDICINA DOS ATLETAS DE ELITE


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Os eventos esportivos, sem dúvida alguma, estão entre as maiores festividades do planeta, atraindo a atenção de bilhões de pessoas todos os anos. Os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo de Futebol, ambos realizados a cada quatro anos, são uma vitrine de talentos, na qual é possível observar atletas superando uns aos outros e a si próprios. A exemplo, Lionel Messi, um dos jogadores de futebol mais habilidosos de todos os tempos, foi alvo de um estudo de três universidades espanholas que constatou que as habilidades motoras do jogador são muito acima da média em relação aos outros jogadores. Simone Biles, considerada uma das melhores ginastas olímpicas das últimas décadas, participou das olimpíadas pela primeira vez no Rio de Janeiro, em 2016, e conquistou quatro medalhas de ouro, enquanto Michael Phelps, com 23 medalhas de ouro olímpicas na natação, dispensa comentários. Mas você já parou pra pensar o que esses três atletas têm em comum?

         A preparação intensiva e supervisionada, é claro! A medicina desde sempre caminhou lado a lado com esses atletas considerados de “elite”. De acordo com um estudo recente da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), o preparo destes “super-atletas” envolve desde perseverança e treinamento constante até fatores biológicos e genéticos que auxiliam o atleta na melhoria da performance. Além disso, destaca-se que para atingir o auge, os esportistas devem trabalhar de modo a neutralizar e se adaptar às diferentes condições adversas das provas, como menor disponibilidade de oxigênio e diferentes oscilações de temperatura e umidade. Para isso, o acompanhamento do profissional em Medicina do Esporte é de suma importância pro sucesso desses indivíduos.

         É claro, algumas características são inatas dos indivíduos. O biólogo molecular e professor da UNIFESP, João Bosco Pesquero, é um dos estudiosos que atua analisando os chamados Polimorfismos de Nucleotídeo Simples, que são consideradas pequenas variações no DNA responsáveis por garantir propensão a determinadas habilidades. De acordo com o estudo, o desenvolvimento destas habilidades seria facilitado pela existência de modificações no material genético dos indivíduos, o que melhoraria, de certa forma, a performance desses atletas.

Por outro lado, é inegável a importância de um treinamento bem estruturado. Para estudar a capacidade de superar as adversidades ambientais as quais os atletas podem estar sujeitos, Antônio Carlos da Silva, chefe da disciplina de Neurofisiologia e Fisiologia do exercício, também da UNIFESP, diz que para superar o desconforto respiratório pela rarefação de oxigênio em altitudes muito elevadas, os atletas passam por um “pré-condicionamento isquêmico”, cujo objetivo é conseguir aumentar a demanda energética quando o consumo de oxigênio pelos músculos está no limite. Se conseguirem então repetir esse condicionamento em grandes altitudes, o desempenho será satisfatório e o desconforto do atleta muito menor.

         Além de tudo isso, o profissional médico é importante para a recuperação e prevenção de lesões. A prevenção se dá por meio da análise criteriosa do estado de saúde dos indivíduos, presença ou ausência de doenças que possam causar dano ao indivíduo com a prática esportiva, bem como investigação completa dos parâmetros laboratoriais e antropométricos. O médico é quem vai conseguir prever a capacidade de um indivíduo atingir ou não a elite, seja qual for a modalidade escolhida por ele. Já no caso dos traumas e lesões, a reabilitação deste esportista será acompanhada de perto pelo médico responsável e por uma equipe multidisciplinar com profissionais da enfermagem e fisioterapia, que irão garantir o sucesso da recuperação com qualidade e no menor tempo possível.

         Por fim, a preparação desses atletas não pode deixar de lado o aspecto psicoemocional, uma vez que o estresse está relacionado diretamente com o aparecimento de um maior número de lesões. Inegavelmente, esses indivíduos estão constantemente expostos a situações de privação de sono, frustrações com resultados negativos e pressão pela melhoria das suas performances. Para ajudar a reduzir esse problema, é fundamental diminuir as fontes de estresse do ambiente, como barulhos, reduzir o número de entrevistas, manter o foco, diminuir o uso das redes sociais, treinar com qualidade e sempre manter o acompanhamento com profissional de saúde mental capacitado para lidar com essa realidade. 

Para você que se interessa pela área de Medicina do Esporte, algumas instituições no Brasil, se destacam por oferecer essa especialidade, como a Universidade de São Paulo (USP), a Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp), a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Universidade de Caxias do Sul (UCS).

As Olimpíadas de Tokyo vão ocorrer do dia 23 de julho de 2021 até o dia 8 de agosto. Que tal aproveitar esse espetáculo do esporte para prestigiar os maiores atletas do mundo, cuja vontade de vencer está bem além dos próprios limites?

Christopher Alecsander Herane Rohden

REFERÊNCIAS

Pastre Carlos Marcelo, Carvalho Filho Guaracy, Monteiro Henrique Luiz, Netto Júnior Jayme, Padovani Carlos Roberto. Lesões desportivas na elite do atletismo brasileiro: estudo a partir de morbidade referida. Rev Bras Med Esporte, 2005.

Lopes Thiago Ribeiro, et al. Pré-condicionamento isquêmico, sprints repetidos e respostas autonômicas cardíacas. Trabalho apresentado ao IV Congresso de Ciência do Desporto, Campinas, 2014.

Dias Rodrigo Gonçalves, Pereira Alexandre da Costa, Negrão Carlos Eduardo, Krieger José Eduardo. Polimorfismos genéticos determinantes da performance física em atletas de elite. Rev Bras Med Esporte, 2007.