Aprendendo a aprender

Você já se sentiu frustrado ao perceber que esqueceu um conteúdo que havia acabado de aprender há algumas semanas atrás? Atire a primeira pedra o estudante que jamais passou por essa situação. Quando pensamos no contexto de aprendizado atual, é fácil compreender porque situações como a mencionada anteriormente são comuns de ocorrer, visto que nunca antes se teve acesso a tantas informações e de forma tão rápida e facilitada. Se por um lado isso é extremamente benéfico, por outro pode colocar o aluno em uma situação em que ele é constantemente “bombardeado” por conteúdos, sem saber ao certo como reter e de fato compreender todas essas informações. Nesse contexto, é fundamental que o estudante não apenas preocupe-se em assimilar o assunto teórico em si, mas também, informe-se sobre os melhores meios para realizar essa tarefa, é o famoso “aprender como aprender”.

         Atualmente, existem muitas técnicas que se mostram mais eficientes em relação ao processo de aprendizado. E o que essas técnicas possuem em comum? Todas colocam o estudante não como alguém passivo no processo de aprendizado, mas sim como um agente ativo, que de fato se envolve nesse processo. Abaixo separamos algumas técnicas que, com base em artigos publicados, apresentam alta ou moderada utilidade para auxiliar na retenção de informações.

  • Realização de testes e questionários

Que tal usar a dinâmica de responder questões, semelhante a uma prova, como forma de aprendizado? Essa técnica parece ser extremamente útil para auxiliar no processo de assimilação de conteúdo e aumentar a capacidade de retenção a longo prazo.

No artigo de revisão “Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques: Promising Directions From Cognitive and Educational Psychology” os autores classificaram técnicas de aprendizado em alta, moderada ou baixa utilidade, e esta ferramenta obteve a máxima avaliação. Além disso, segundo Augustin (2014), pesquisas realizadas com estudantes revelaram que responder questões de forma rotineira como forma de revisão ajuda muito mais na retenção do conteúdo do que simplesmente reler aquele assunto.

No contexto da faculdade de medicina, achar questionários entre os inúmeros livros com várias páginas de teoria pode ser um desafio. Para contornar essa situação, o aluno pode utilizar-se da confecção de flashcards, obter assinatura de plataformas online de ensino médico que disponibilizam banco de questões e, também, realizar provas pregressas de residências encontradas na internet.

  • Revisão espaçada

Um fato muito comum é o aluno se esforçar para aprender um assunto, contudo, não se preocupar em revisá-lo. A longo prazo, essa situação é um verdadeiro erro, como demonstra a curva de esquecimento e retenção proposta pela primeira vez pelo psicólogo alemão Ebbighaus. Segundo essa curva (Figura 1), a porcentagem de retenção do conteúdo diminui gradativamente ao longo do tempo ao ponto de que, depois de um mês do primeiro contato com o conteúdo, cerca de 80% da matéria estudada foi esquecida caso não seja revisada nesse mesmo período. 

https://www.almanaquesos.com/tecnica-24-7-30-metodo-de-estudo-retencao-memoria/

Nesse contexto, a revisão espaçada é um método extremamente eficaz para auxiliar na retenção a longo prazo. Uma proposta é a seguinte: revisar o novo conteúdo no dia seguinte após o primeiro estudo, uma semana depois do primeiro contato com o assunto e, por fim, um mês depois. Lembre-se, durante esses processos de revisão, priorize formas ativas de estudo, como responder questões!

  • “Explicar para si mesmo” e o estudo intercalado

Outra técnica que parece ser muito promissora é explicar para si mesmo o conteúdo, buscando relacionar as novas informações com conhecimentos prévios. Essa ferramenta auxilia na memorização, compreensão e transferência de informações. O aluno pode, inclusive, gravar áudios explicando o conteúdo, de forma que esses possam ser ouvidos posteriormente como revisões.

O estudo intercalado consiste em estudar alternando diferentes assuntos e formas de revisão em um mesmo ciclo de estudo. Essa técnica pode ser útil para aqueles alunos que possuem muitas matérias, como é o caso do estudante de medicina. Sendo assim, em vez de estudar horas seguidas, por exemplo, sobre a anatomia do sistema respiratório, pode-se intercalar esse assunto com a fisiologia desse mesmo sistema. Segundo Dunlosky et al (2013), esse modo de estudo obteve melhores resultados no quesito de retenção a longo prazo em comparação com o estudo contínuo de um único tópico.

   Essas são algumas das muitas técnicas de aprendizado que os artigos citam como muito eficientes. Em geral, o sucesso no processo de assimilação do conteúdo envolve a participação ativa do aluno, autoconhecimento para descobrir a melhor técnica para si e organização. Aprender sempre vai ser um desafio, ainda mais em um contexto de aulas onlines e pandemia, contudo, conhecer e aplicar técnicas como as mencionadas anteriormente podem tornar esse processo mais eficiente e prazeroso!

   Por fim, existem alguns aplicativos que podem te ajudar! Um deles é o Notion, um App de produtividade que, por meio de suas inúmeras ferramentas, possibilita a organização da rotina pessoal e de estudos, criação de flashcards, de resumos interativos, entre outras funções, tudo em um mesmo aplicativo!  O  aplicativo Anki também pode ser um aliado na elaboração de flashcards, ademais, é possível programar o aplicativo para a realização de revisões espaçadas. Ambos são gratuitos na versão pessoal e podem ser baixados no computador e celular. 

Nesse sentido, conversamos com o estudante Douglas Morais, que cursa o sétimo semestre de Medicina na UFMT, 22 anos, cuiabano e idealizador do perfil no Instagram @ankichallenger, sobre algumas dicas e experiência pessoal em relação ao uso do Anki. 

Neste sentido, o estudante nos relatou que “O Anki é um aplicativo fantástico devido à sua versatilidade. A criação das cartas, de modo a fazê-las didáticas, é um excelente exercício de aprendizagem por si só. Apesar do modelo de revisão ativa e espaçada por flashcards ser algo bem específico e passível de personalização, algumas regras básicas funcionam para todos”. 

Dicas de ouro do Douglas: “primeiro entenda o conceito; depois aprenda; e só então memorize criando seus cartões. A longo prazo, com a imensidão de conteúdos englobados pelas Ciências Médicas, que é minha área de estudo, você não conseguirá se recordar de conceitos meramente decorados. Um outro ponto importante é construir seu conhecimento a partir do básico: tentar memorizar o tratamento de uma condição sem entender a fisiopatologia desta e a farmacodinâmica das drogas utilizadas é possível, mas extremamente trabalhoso e doloroso. Em suma, crie seus cartões atendo-se a estas orientações e ao “Princípio da Mínima Informação”: faça-os simples e curtos, em que você diz muito com poucas palavras, pois assim será mais fácil relembrar conceitos quando você for testado — seja em provas ou em situações práticas”.

Quando perguntamos sobre a frequência de utilização e as melhorias no seu desempenho escolar, Douglas nos relatou o seguinte: “Conheci o Anki logo no meu primeiro semestre, ainda no temido bloco de Neuro (Neurologia). Instalei o Anki e fiz um único cartão, surtei quando li duas páginas do livro de Neuroanatomia do Machado et al. (2014) (referência básica para esta etapa), e logo desinstalei. A partir de então, e até o sexto semestre, estudei como a maior parte dos estudantes da nossa Faculdade: me preparando para sessões de tutorias e provas com resumos meus e de terceiros – digitados – sem jamais revisá-los novamente após os semestres. Apesar de ter me dedicado significativamente em cada semestre, assim como a maioria dos meus colegas, eu notei que pouco me recordava dos conteúdos referentes ao ciclo básico e ao início dos ciclos clínicos. Incentivado por amigos que usavam o Anki (Nicolas, Paes, Thiago, Pipe e Beraldi, todos colegas de curso), instalei novamente este aplicativo fantástico e, dessa vez, foi paixão à segunda vista. Em 10/04/2020, conforme data o meu Review Heatmap, comecei a usar assiduamente o Anki. Hoje, no dia 04/05/2021, com 1 ano de experiência no Anki e aproximadamente 14 mil cartões criados, sinto a minha trajetória acadêmica transformada! Consigo assimilar contextos práticos de forma muito clara e rápida ao embasamento teórico consolidado pelos flashcards. Com a criação do AnkiChallenger, objetivo incentivar outros acadêmicos a buscarem uma forma mais eficiente e menos desgastante de memorizar.”

Fascinante não é mesmo! Otimizar o aprendizado e memorização é muito importante, uma vez que grande parte dos conteúdos certamente serão necessários na vida profissional.

Por fim, não deixe de acompanhar alguns perfis no Instagram que abordam esse tema como @grupomov.er, @ankichallenger e, também, conferir tutoriais no youtube que auxiliem na configuração dos Apps citados anteriormente!

Maria Julia Medeiros Metello, turma 63

Colaboração: Douglas Morais, turma 60

Referências

Augustin M. How to learn effectively in medical school: test yourself, learn actively, and repeat in intervals. Yale J Biol Med. 2014;87(2).

Dunlosky J, Rawson K, Marsh E, Nathan M, Willingham D. Improving Students’ Learning With Effective Learning Techniques. Psychological Science in the Public Interest. 2013;14(1):4-58.

 Machado A, Haertel L. Neuroanatomia funcional. 3 ed. São Paulo: Atheneu; 2014.