De onde vêm as emoções?

Sistema límbico e regulação das emoções — ANDREIA TORRES

Você alguma vez já se perguntou o por quê de vivenciar determinado sentimento?  Por que choramos? Por que sentimos medo? Por que ficamos felizes? Nós, do Jornal Anamnese, paramos para refletir sobre como funciona a neurofisiologia por trás das emoções e gostaríamos de compartilhar com você, leitor, um pouco do que aprendemos.

Antes, de fato, começarmos com a teoria sobre esse assunto, vamos contar uma história: Era uma vez, um trabalhador chamado Phineas Gage, que viveu em meados do século XIX. Phineas costumava ser muito bem visto em seu trabalho pois era eficiente, emocionalmente equilibrado, inteligente e disciplinado. Certo dia, um acidente de trabalho fez com que uma barra de ferro atravessasse o seu lado esquerdo da cabeça, penetrando na região maxilar e alcançando o seu lobo frontal (uma das regiões do encéfalo humano). Apesar da lesão, Gage não perdeu a consciência e poucas semanas depois já estava ansioso para voltar ao trabalho. No entanto, em decorrência da mudança de comportamento, Phineas foi demitido, pois após o acidente mostrava-se indiferente, indeciso, desleixado, impaciente e outros adjetivos que iam de encontro à pessoa que o trabalhador era antes do acontecido. O caso do rapaz foi descrito na época e foi um grande propulsor para os estudos de como se dava o comportamento humano por detrás das redes neuronais.

A partir de então, foram surgindo diferentes teorias que pudessem explicar, fisiologicamente, as nossas emoções. Um anatomista, chamado Joseph Papez, contribuiu fortemente para a consolidação do que hoje conhecemos  como Sistema Límbico (SL). Para esclarecer, o SL é um circuito de neurônios (células do nosso sistema nervoso) que se relaciona com as respostas emocionais e impulsos motivacionais. Neste sistema estão incluídas regiões do nosso encéfalo (cérebro) tais como hipotálamo, amígdala, núcleos da base, área pré frontal, cerebelo, septo e hipocampo (este participa mais ativamente da construção das nossas memórias de forma a exercer também impacto sobre nossas emoções). É importante salientar que diferentes autores podem considerar uma ou outra região como integrantes desse sistema, mas que a grande maioria dos consensos incluem estas já citadas. Além disso, por mais parecidas que sejam as estruturas anatômicas de cada indivíduo, as reações individuais frente a determinadas situações também apresentam um componente subjetivo, relacionado às experiências de vida de cada um.

fonte: a neurobiologia das emoções, disponível em Scielo (https://scielo.org/)

Sabendo disso, podemos começar a abordar como, de fato, funciona a neurofisiologia das nossas emoções. Primeiramente, podemos imaginar o nosso sistema límbico como uma teia de aranha. Imaginemos cada órgão que compõe o sistema como uma linha dessa teia. Cada uma tem o seu papel na sustentação desta. Nenhuma é mais importante que a outra, não há hierarquia. No fim, estas linhas se comunicam entre si, formando uma grande rede. Essa nossa “teia” vai receber estímulos do meio externo, atribuir carga emocional de acordo com as experiências de cada pessoa e se traduzir em resposta a estes estímulos. 

Didaticamente, associa-se algumas regiões do nosso SL com emoções específicas, por exemplo: a Amígdala está relacionada às situações de forte impacto emocional como encontros agressivos, experiências afetivas além de estar relacionada a um sistema de recompensa. O Septo está relacionado à raiva e ao prazer. O cerebelo além de coordenar algumas funções motoras no nosso corpo, também tem correlação com a nossa personalidade, afeto e cognição. A área pré-frontal é considerada a “sede” da personalidade, atua na tomada de decisões e nos ajuda a interpretar qual atitude é socialmente mais aceitável diante de determinada circunstância. O Hipotálamo é considerado um grande protagonista do nosso SL, estudos com animais demonstraram que, dependendo da região estimulada ou inibida  do Hipotálamo, observava-se diferentes comportamentos, tais como: fúria x tranquilidade, fome x saciedade, medo, reações de punição, estímulos sexuais, etc.

Sendo assim, percebe-se que as áreas do nosso cérebro fazem estas conexões nervosas. Os neurotransmissores são pequenas moléculas responsáveis por mediar essas conexões e produzir respostas nos nossos sistemas somático (voluntário, que basicamente é o que podemos “controlar” no nosso corpo) e visceral (associado a órgãos internos)  que comunicam nosso organismo com o meio externo. Logo, nossas emoções são acompanhadas e traduzidas em respostas autonômicas, endócrinas e musculoesqueléticas, que preparam o corpo para alguma reação. Ademais, percebe-se que a ciência consegue explicar alguns aspectos biológicos relacionados à emoção, mas o que é, de fato, a emoção, segue sendo uma questão que vai além do que a ciência consegue traduzir. 

Vanderson, Esperidião-Antonio,  et al. Neurobiologia das emoções. n. 2. SP,  2008. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-60832008000200003>. 

Autora: Vitória Maria Canton Seben, turma 63.