Minha residência médica, minha vida!

Fellipe de Paula, 28 anos, graduado na XXIII Turma de Medicina da Universidade de Cuiabá, é, atualmente, residente do quarto ano (R4) de Neurocirurgia no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de Campinas (HC-UNICAMP). Nesta entrevista, o médico elucida algumas questões gerais a respeito da residência, relatando sua experiência pessoal e sua rotina diária. Além disso, Fellipe descreve como foi sua preparação até a aprovação, além de avaliar o peso das atividades extracurriculares no seu processo seletivo e dar uma valiosa dica aos estudantes que ainda não escolheram sua futura especialidade. O que te motivou a escolher a residência médica em Neurocirurgia? Costumo dizer que a Neurocirurgia me escolheu. O misticismo acerca do funcionamento do sistema nervoso, assim como a bela anatomia, a possibilidade de trabalhar com alta tecnologia empregada na interface médico-paciente e a complexidade desafiadora intrínseca aos procedimentos neurocirúrgicos sempre me cativaram, desde o início de minha formação. Isso fez com que eu iniciasse minha caminhada rumo à especialidade desde o segundo ano da faculdade, por meio de monitorias e da Liga Acadêmica de Neurologia e Neurocirurgia de Mato Grosso (LANN-MT). Suas expectativas em relação a essa escolha foram contempladas? Com certeza. Porém, atualmente, no quarto ano de residência médica, tenho plena convicção de que a neurocirurgia é realmente uma especialidade para poucos. Infelizmente, a complexidade dos pacientes, bem como a gravidade deles, refletem na alta demanda física e emocional e na constante busca pela perfeição e excelência na execução de tarefas e cirurgias, afinal não existe espaço para erros. de amenizar ao máximo o impacto desse fenômeno é um ato de cuidado, contudo, zelar pelo outro é um desafio, quando o mensageiro sequer tem condições de dar atenção ao seu recado. Nesse ínterim, a busca pelo conforto pode iniciar-se com um processo de autoconhecimento, saudade e ressignificação. É um momento de reflexão e por isso, toda ajuda profissional, familiar ou de amigos torna-se indispensável ao passar por esse ciclo de fases que envolvem sentimentos como negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Minha residência médica, minha vida! Como é a sua rotina? A rotina varia conforme a residência avança. O serviço se baseia em uma hierarquia de funções e cada uma delas demanda uma rotina específica. No primeiro ano, aperfeiçoamos o conhecimento em neurologia clínica e somos submetidos a plantões de urgência e emergência neurológicas clínicas e cirúrgicas. A partir do segundo ano, somos submetidos ao treinamento em laboratório de microcirurgia, com simulações realísticas em cadáveres de nossos procedimentos mais complexos, além de iniciarmos o trabalho nos incansáveis e famosos plantões de urgência e emergência neurocirúrgica. No terceiro e quarto ano, estagiamos no laboratório de microcirurgia, nos ambulatórios (neurocirurgia vascular, pediátrica, oncológica, coluna, funcional, deformidades craniofaciais, espinha-bífida, nervos-periféricos), realizamos procedimentos de urgência e emergência e, junto ao residente-chefe (R5), cirurgias eletivas. No quarto ano, o foco gira em torno das cirurgias e procedimentos relativos às patologias da coluna vertebral e do sistema nervoso periférico e no estudo microanatômico das fibras brancas. No último ano nos tornamos residentes-chefes, organizando o serviço junto à equipe e operando as  cirurgias de maior complexidade, sob a supervisão dos coordenadores e preceptores. Em resumo, pode-se dizer que nos dois primeiros anos de residência as atividades se baseiam em plantões de pronto-socorro e unidades de terapia intensiva, atividades ambulatoriais, manejo clínico de pacientes em enfermaria e auxílio nas cirurgias de urgência e emergência. Nos anos seguintes, já nos tornamos cirurgiões principais nas cirurgias de urgência emergência e eletivas, porém ainda realizamos plantões em pronto-socorro e atividades em ambulatórios específicos. Além disso, rounds, visitas médicas diárias e reuniões clínicas, são de caráter obrigatório a todos. Existe um lado negativo ou algo que lhe desagrade na especialidade que você escolheu? Sim. Lidamos com pacientes de extrema complexidade/ gravidade, o que implica em resultados frustrantes em muitas ocasiões. A demanda psicológica é intensa e muito presente no dia a dia. Neste ponto a Neurocirurgia é realmente cruel. Como foi seu processo de preparação para as provas de residência? Foi realmente uma maratona. Preparei-me e dediquei-me totalmente por mais de dois anos a isso. De fato, durante esse período, vivi a minha vida em função do meu objetivo. Fiz dois anos de curso preparatório durante o meu internato e me dedicava 100% a isso. Fiz todos os módulos e exercícios propostos e, no primeiro ano de estudo, fiz mais de cinquenta provas dos serviços que eu concorreria no ano seguinte. No segundo ano, até minha formatura, em agosto de 2017, tinha por rotina realizar as atividades do curso preparatório e três provas por semana. Após a formatura, na reta final, otimizei meu tempo e meu ritmo de estudos, fazendo uma prova por dia, além das atividades propostas pelo curso preparatório. O resultado foi a resolução de aproximadamente 35 mil questões, 9 concursos prestados, 8 aprovações até a terceira fase e 4 aprovações finais (HC-UNICAMP, Hospital Santa Rosa-MT, SUS-SP, IAMSPE). Qual foi a contribuição das atividades extracurriculares na prova da residência? Em termos de contribuição para pontuação, realmente, não foi de grande valor, porém, em especialidades de alta concorrência, isso com certeza ajuda a colocar um melhor olhar do avaliador nas entrevistas. No meu ano, por exemplo, todos os aprovados haviam realizado atividades extracurriculares no exterior e continham publicações internacionais em seus currículos. O que você deixaria como recomendação aos estudantes de Medicina em relação à escolha da residência médica? Um bom conselho, antes de tudo, é definir o estilo de vida que se deseja levar no futuro e avaliar se tal rotina é compatível com uma especialidade clínica ou cirúrgica. A partir disso, uma junção de vocação, interesse, adequação com a rotina da especialidade, perspectiva de retorno financeiro e satisfação profissional é o ideal. Vale lembrar que especialidade perfeita não existe e que acompanhar serviços ou colegas especialistas permite enxergar as nuances de cada uma delas, possibilitando a tomada de uma decisão mais racional.