O ensino remoto e o retorno às práticas nas Faculdades de Medicina da UFMS e UFMT

Em toda formação acadêmica, é indispensável que os discentes tenham contato com os contextos estudados em sala de aula. Na área da saúde, esse pré-requisito é ainda mais relevante. Dessa forma, os conteúdos abordados em aulas práticas são alicerces para a compreensão do funcionamento do sistema do corpo humano e sobretudo, para a avaliação clínica dos pacientes que estarão sob cuidados dos futuros médicos. Sendo assim, a não realização de aulas práticas resultará em dificuldades para realizar corretamente muitos procedimentos, bem como entender o porquê desses procedimentos. Nesse intuito, esta reportagem trouxe relatos de contextos vivenciados em duas instituições do centro-oeste para exemplificar que diante de uma pandemia as condutas tomadas podem ser completamente opostas, mesmo sendo duas universidades federais. Com o início da pandemia da COVID-19 e a necessidade de isolamento social, a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) fez um planejamento de retorno do ensino remoto imediato em fevereiro de 2020. De acordo com a aluna Michelle Acosta – membro do Centro Acadêmico de Medicina Günter Hans (CAMGH) e acadêmica do ciclo básico (primeiro e segundo ano) – as turmas não tiveram nenhuma prática no primeiro semestre (de fevereiro a julho de 2020), devido às medidas de biossegurança (figura 2). No segundo semestre de 2020, as aulas práticas retornaram entre os meses de outubro e novembro, mas com número de alunos reduzidos por turma. Segundo Michelle, muitas destas aulas práticas foram interrompidas em momentos quando Campo Grande entrava na bandeira cinza, isto é, quando os municípios estavam no grau de risco extremo para a COVID-19. No início de 2021 foram repostas algumas práticas perdidas durante 2020, porém foram as únicas atividades presenciais do ciclo básico. Apesar dessa liberação, ficou suspensa a entrada do ciclo básico em Unidades Básicas de Saúde (UBS), somente estágios para o ciclo clínico eram permitidas. As aulas em laboratórios, quando permitidas, só poderiam ser utilizadas por no máximo quinze alunos, sendo que as janelas estariam obrigatoriamente abertas para seguir as medidas de biossegurança. No Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (HUMAP), a entrada foi permitida apenas para unidades curriculares iguais ou acima do terceiro período, enquanto na turma do segundo ano eram apenas duas duplas por hora. A acadêmica Michelle declarou que o planejamento de retorno partiu da própria universidade, mas como ocorreu em um curto período de tempo, muitos professores não conseguiram se preparar para a flexibilização educacional. O reitor empenhou-se para não atrasar o calendário, mas de acordo com a estudante, a mudança abrupta resultou em muitos problemas momentâneos, como por exemplo: não adequação ao uso de tecnologias da informação e comunicação de professores e alunos. Em relação ao ciclo clínico e ao internato, o aluno Vinícius Eduardo Molina – coordenador geral do CAMGH e estudante do quinto semestre – relatou que o internato parou durante aproximadamente um mês no ano de 2020 e após essa pausa retornou aos estágios com medidas de segurança apropriadas. De acordo com ele, as atividades para todos os estudantes do ciclo clínico estão restritas, de modo que alguns setores destinados ao atendimento da COVID-19 não podem ser acessados pelos acadêmicos. Um dos prejuízos mencionados pelo estudante é a redução do número de pacientes, uma vez que a grande maioria é paciente com a COVID-19, o qual eles não podem ter contato, dificultando o estudo das práticas. Sobre os equipamentos de proteção individual (EPI), a universidade concedeu auxílio aos estudantes para aquisição desses recursos e distribuíram máscaras PFF2. O acadêmico admite que pelo fato das aulas de Semiologia terem sido, totalmente, remotas para algumas turmas, o retorno às práticas em semestres posteriores foram muito prejudicados pela falta de experiência que deveria ter sido adquirida no semestre precedente. Já na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), campus Cuiabá, tiveram suas atividades presenciais interrompidas no dia 11 de março de 2020, em decorrência da pandemia, e o retorno com ensino remoto se deu apenas no dia 10 de agosto de 2020. Desde então, as atividades práticas se mantiveram totalmente suspensas, causando insegurança e insatisfação de muitos acadêmicos, que recorreram ao Centro Acadêmico XIII de Abril (CaMed) para exigir parecer da universidade e requerer um planejamento imediato de retorno às práticas. Após muitas reivindicações e exposições do caso em setores midiáticos, os estudantes dos últimos dois anos conseguiram retornar às práticas entre os meses de setembro e novembro de 2020. A cobrança exaustiva não findou, sendo que os alunos das outras unidades curriculares se mantiveram impedidos de retornarem às práticas até que estivessem vacinados com a primeira dose. O CaMed, mais uma vez, encontrou-se na obrigação de representar os discentes e solicitou à direção da Faculdade de Medicina da UFMT uma declaração para conseguir vacinar todos os graduandos. Em julho de 2021, as unidades curriculares retornaram às práticas conforme as medidas de biossegurança, mas com atraso de, aproximadamente, um ano na graduação de todos os universitários, causando prejuízo financeiro e danos à saúde mental de muitos discentes e ônus à economia brasileira. Atualmente, a faculdade de Medicina da UFMT permitiu o retorno às aulas práticas apenas em Unidades Básicas de Saúde e no Hospital Universitário Júlio Muller, enquanto os laboratórios de habilidades presentes no prédio da universidade permanecem proibidos de serem utilizados. Além disso, um recurso redigido por um discente da Faculdade de Medicina da UFMT foi apresentado com o argumento de que a maioria dos alunos não foram totalmente imunizados, isto é, receberam apenas a primeira dose da vacina, com o intuito de impedir a volta às aulas práticas, que estão ocorrendo desde 21 de julho de 2021.