Uma perspectiva do luto durante a pandemia pela COVID-19


As mortes por COVID-19 no Brasil ultrapassaram 565 mil vítimas. Com isso, percebe-se a necessidade de discutir como isso afeta o processo de luto dos familiares que tiveram perdas nesse contexto. Mas afinal, o que é o luto? Segundo a doutora Maria Helena Bromberg, o luto pode ser definido como um conjunto de reações inespecíficas a uma perda significativa. Já Engel e Worden, outros estudiosos do tema comparam o luto a uma queimadura grave que causa um efeito psicologicamente traumático. Além disso, ao longo do tempo várias discussões foram propostas a fim de abordar as fases do luto. E neste sentido, a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross propôs 5 fases: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. É necessário ressaltar que essas fases, por mais que sejam enumeradas, não seguem sempre uma sequência bem definida, podendo muitas vezes se sobreporem ou inverterem a ordem. Isso acontece, pelo fato de que cada ser humano processa informações de maneiras distintas, levando em conta sua personalidade e uma gama infinita de fatos. Um bom exemplo dessa organicidade das fases é quando o indivíduo que está experimentando o luto antes da efetiva morte de seu ente está na fase da barganha, e faz seus pedidos com o intuito de livrar o enfermo de suas dores mesmo que seja pela morte. Nesse momento, o enlutado passa pelo processo de aceitação em conjunto com a barganha. Em meio à pandemia, o fenômeno do luto se transformou: famílias não podem acompanhar de perto seus entes no processo terapêutico, algumas vezes marcado por sofrimento, e quando o mesmo não é suficiente, não podem sequer velá-los, e estão fadados a se contentar com as lembranças. Este novo contexto de luto pode muito bem ser comparado ao luto em situações de morte inesperada onde o enlutado experimenta sensações um pouco distintas. Raquel Arruda Carnaúba, uma das autoras do artigo “Luto em situações de morte inesperada”, publicado na revista Psique, afirma que esses indivíduos têm maiores tendências a autoacusações, sentimento de entorpecimento e a saudade do ente perdido é, muitas vezes, considerada mais forte. Isso acontece pois não é possível acompanhar o tempo de adoecimento onde os familiares se acostumam com a ideia da morte. Vários autores afirmam que indivíduos que passam por este trauma apresentam tendências a auto acusações, sentimento de entorpecimento, e a saudade do ente perdido é, muitas vezes, considerada mais forte. Isso acontece pois não foi possível acompanhar o tempo de adoecimento onde os familiares buscam se acostumar com a ideia da morte. O contexto pandêmico traz também consigo o uso extensivo de protocolos como o SPIKES (S – setting up the interview, significa escolher um local privado, confortável e tranquilo; P – perception, significa avaliar a percepção do paciente; I – invitation, significa perguntar ao paciente o que ele gostaria de saber; K – knowledge, significa dar conhecimento e informação ao enfermo; E – emotion, significa abordar as emoções do paciente e respeitar seus sentimentos com empatia), que tenta sistematizar a transmissão de notícias difíceis. A preocupação em planejar uma forma de expor ao paciente ou a família por uma experiência inevitavelmente desagradável é especialmente importante quando se fala de luto. É inegável que a forma de comunicar uma notícia pode ser determinante no processo de ferir-se, sofrer e se recuperar, pelo qual o luto perpassa. Ainda neste contexto são geradas consequências para os trabalhadores de saúde, pois o ambiente onde se encontram nesse momento é muitíssimo complexo, rotinas extenuantes, frequentes comunicações de notícias difíceis, responsabilidades com o outro em vida e post mortem, visto que as famílias também precisam de “tratamento” naquele momento, precisam ser consoladas e acolhidas, da forma que tal ambiente caótico permite. Tamanha complexidade não apenas causa a exaustão racional e emocional dos profissionais. Um editorial do British Medical Journal trouxe alguns apontamentos sobre o “estado geral” da saúde mental de trabalhadores da saúde em “tempos pandêmicos”. Os dados da China e da Itália reportam o processo de adoecimento da classe, com aproximadamente 50% dos profissionais entrevistados alegando quadros de depressão, 45% de ansiedade e 34% de insônia. Outros autores destacam também o papel da traumatização vicária, fenômeno onde o envolvimento empático do profissional com o paciente doente leva ao adoecimento do cuidador, na depleção da saúde mental dos profissionais da saúde; a inserção em um panorama abarrotado de sofrimento, pelo qual o trabalhador é responsável por tentar mitigar, associada às condições longe de ideais para a execução de seu papel, potencializa o processo do adoecimento do profissional. Neste quadro o trabalhador é responsável por tentar mitigar, associada às condições longe de ideais para a execução de seu papel, potencializando o próprio adoecimento. Ainda nesta perspectiva dos profissionais da saúde, vários autores sugerem importantes apontamentos referentes a experiências passadas de outras endemias como a síndrome respiratória do Oriente Médio. Naquela ocasião percebeu-se que a exaustão física e emocional de profissionais da saúde foi preditora de absenteísmo, problemas de comunicação entre equipe e erros de conduta terapêutica. Estes fatos podem levar a um processo de colapso do sistema de saúde, pois os responsáveis por controlar a situação não se encontram em condição de exercer sua função, mais óbitos podem ocorrer, os quais devem ser comunicados, contudo a exaustão profissional certamente prejudica esta etapa. Inevitavelmente a tão difícil mensagem da perda, mesmo com o uso de protocolos variados, apresenta tantos interferentes e variáveis longe dos ideais, promovem um sofrimento diferente do temido, e longe do esperado para tal situação. Por fim, o luto se torna um processo ainda mais distorcido e difícil de lidar. A tentativa do profissional de amenizar ao máximo o impacto desse fenômeno é um ato de cuidado, contudo, zelar pelo outro é um desafio, quando o mensageiro sequer tem condições de dar atenção ao seu recado. Nesse ínterim, a busca pelo conforto pode iniciar-se com um processo de autoconhecimento, saudade e ressignificação. É um momento de reflexão e por isso, toda ajuda profissional, familiar ou de amigos torna-se indispensável ao passar por esse ciclo de fases que envolvem sentimentos como negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.